O ENCONTRO DE RAUL SEIXAS COM JOHN LENNON
Em 1973, em pleno "milagre econômico" promovido pelo governo militar, a repressão
estava no auge. No entanto,enquanto metalúrgicos eram assassinados nos porões do
DOPs, um cantor baiano se apresentava de pijamas em Brasília, falava sobre uma tal
“sociedade alternativa", mexia com magia negra, bebia feito uma esponja, fumava feito um marcelo d2 e dizia haver sido seqüestrado por extraterrestres em pleno Programa Sílvio Santos. Era Raul Seixas.
Raul era um cantor de protesto às avessas - seu maior hit até então era a balada folk "Ouro de Tolo", em que revelava seu desapontamento consigo mesmo, não com o regime. Era o tipo louco manso, tolerável pela ditadura. Mas encasquetou com sua Sociedade Alternativa e os
militares não gostaram - chegaram a suspeitar que se tratava de algum movimento de guerrilha. No início de 1974, aconteceu o que muita gente já previa. Os policiais seqüestraram, prenderam e
torturaram Raul e seu letrista, Paulo Coelho, após a dupla haver distribuído o Manifesto Krig-Há, uma alucinação literária sobre as novas "leis" que deveriam reger as pessoas. Convidados a se retirarem do país, Raul sugeriu que todos fossem aos Estados Unidos, onde sua esposa, Edith Wisner, tinha família. Passaram alguns meses e, ao retornar (por causa do sucesso do compacto Gita, que havia vendido 600 mil exemplares), Raul alardeou que, entre suas andanças, havia
tocado com Jerry Lee Lewis em Memphis e passado uma tarde com John Lennon, conversando "sobre as grandes figuras da humanidade:
Cristo, Einstein, Calígula, Crowley...". Raul contou ainda que Lennon estaria interessadíssimo em comandar a Sociedade Alternativa nos Estados Unidos. Seu encontro com o ex-beatle foi um de seus maiores orgulhos, sobre o qual não cansava de falar, até sua morte, em 1989.
Quatro anos depois, quando Jerry Lee Lewis esteve tocando no Brasil, um repórter desavisado quis saber sobre sua "jam session" com Raul Seixas. Lewis, com a grossura peculiar, mandou de volta: "nunca ouvi falar nesta pessoa". E sobre John Lennon, será que Raul também mentiu?
Cláudio Roberto, parceiro do roqueiro baiano em vários hits e seu amigo desde a adolescência, revela que sim. "Raul era uma criança. Mas também era absolutamente sincero dentro desta falta de autenticidade. Ele morreu jurando haver entrevistado o John Lennon, mas todo mundo que o conhecia sabia que não era verdade".
Segundo Cláudio, o cantor acabou preso numa teia de mitologias criadas por ele próprio. Nelson Motta, que conheceu profundamente Raul no início de carreira, deu a versão definitiva em
seu livro Noites Tropicais. Segundo o jornalista, Raul, Paulo e as esposas "por dias cercaram o Edifício Dakota (...), onde moravam John Lennon e Yoko Ono, em busca de um encontro. Em vão: nunca foram recebidos, mas na volta ao Brasil deram longas e detalhadas entrevistas sobre as idéias que trocaram com o famoso casal". Motta revela que a viagem dos casais entre Nova York e Los Angeles, incluiu muitas drogas, muitas visitas às head-shops americanas e passeios pela Disneylândia. Mas não incluiu nenhuma tarde com John Lennon, para decepção dos fãs do maluco beleza.


